Inventário Nacional de Referências Culturais - produção de doces tradicionais pelotenses

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Flavia Maria Silva Rieth (Coordenadora)

O Inventário Nacional de Referências Culturais – produção de doces tradicionais pelotenses tem como proponente a Câmara de Dirigentes Lojistas de Pelotas, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A Universidade Federal de Pelotas é executora desta investigação por intermédio do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia – compõem a equipe de pesquisadores: Flavia Rieth (Coordenadora), Fábio Vergara Cerqueira, Maria Letícia Mazzuchi Ferreira, Francisca Ferreira Michelon (consultora em imagem), Mario Osorio Magalhães (consultor em história), Tiago Lemões da Silva e Marília Floôr Kosby. O inventário dos doces de pelotas* recebe financiamento do programa Monumenta, da Unesco e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

A pesquisa objetiva a identificação e registro da tradição doceira da região de Pelotas como patrimônio imaterial brasileiro. A compreensão dos múltiplos significados que estão associados aos modos de fazer os doces pelotenses, demanda a realização de estudo de perfil etnográfico, considerando as atualizações que têm possibilitado esta tradição manter-se viva como prática social.

Conforme metodologia do IPHAN, a pesquisa foi dividida em três etapas: preliminar, de identificação e documentação. Na etapa preliminar formou-se a equipe de trabalho, esta delimitou os bens a serem inventariados como doces de pelotas – doces finos e coloniais, com base em pesquisas históricas anteriores. Na delimitação preliminar do sítio optou-se pela configuração Pelotas e Pelotas Antiga, de modo a contemplar a cidade e a região. Realizou-se ainda, um levantamento bibliográfico, para catalogar obras que fizessem referência direta e indireta aos doces de pelotas. Na etapa de identificação foram realizadas entrevistas com pessoas indicadas como conhecedoras legítimas da tradição doceira, bem como as envolvidas na produção dos doces a serem inventariados – seja artesanal, manufaturada ou industrial; o trabalho de campo seguiu as particularidades das tradições: a dos doces de bandeja ou finos (ênfase na zona urbana) e dos doces coloniais ou de frutas (ênfase na zona rural). Além das entrevistas, lançou-se mão de filmagens e registros fotográficos dos modos de fazer os doces tradicionais pelotenses, assim como dos utensílios, dos livros de receitas e documentos que possam informar sobre a perpetuação e atualização de tal tradição. Da fase de documentação – na qual a investigação se encontra – constam o preenchimento das fichas de registro de bens culturais elaboradas pelo IPHAN e a elaboração de material audiovisual.

Pode-se apontar que a tradição doceira de Pelotas, no que tange aos doces de bandeja ou finos, configura-se à medida que encontramos suas origens na sociedade do século XIX, época em que a cidade prosperava economicamente graças à valorização do charque, principal produto pelotense de então. O acúmulo de riquezas, a facilidade em se trocar o charque pelo açúcar do nordeste brasileiro e a curta duração das safras, facilitavam às famílias dos charqueadores exercitarem sua sociabilidade, em suntuosos saraus e banquetes, nos interiores dos casarões, mesmo lugar onde mucamas e sinhás executavam as refinadas receitas de Amanteigados, camafeus, ninhos, fatias de Braga, bem casados, olhos de sogra, pastéis de Santa Clara e quindins – doces que compunham as bandejas de sobremesas destas festas.

Os doces coloniais se reportam ao século XX, em que as propriedades dos charqueadores foram vendidas ou arrendadas como lotes coloniais, os quais receberam, principalmente, imigrantes alemães, pomeranos, italianos e franceses, populações que além de cultivarem diferentes frutas, também se dedicaram à tradição de produzir pessegada, passa de pêssego, compota de pêssego, origone (feito de pêssego seco), figo cristalizado e marmelada branca.

Um desdobramento das pesquisas do INRC – produção de doces tradicionais pelotenses aponta ainda a contribuição da etnia negra para a tradição dos doces pelotenses a partir dos usos e significados que esta assume nos rituais religiosos do Batuque – religião afro-brasileira de culto aos orixás, para os quais os doces são oferendas.

Apesar da mudança no paladar e nas receitas, reflexos do caráter inventivo dos atores, esta arte permanece viva. Neste sentido, se reforça o reconhecimento da cidade como Capital Nacional do Doce. Tal reconhecimento trata de integrar Pelotas à geografia do doce, rivalizando com o nordeste e o Rio de Janeiro, regiões produtoras de açúcar – na excelência dos doces de ovos e açúcar. Percebe-se, até o momento, que tamanha é a amplitude da discussão sobre o doce, que é possível discutir juntamente a cidade, nas dimensões de classe social, etnia e gênero.

* Adota-se a expressão “doces de pelotas” em grafia minúscula, como forma de diferenciação, visto que se trata do bem a ser inventariado e não da cidade de Pelotas.



 

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