19/11/2010 | Charme colonial. |
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Autor: Janice Kiss
Fotos: Fernanda Bernardino
Fonte: http://revistagloborural.globo.com
Petiscos, caldinhos e polenta enquanto o almoço não é servido
No começo era só uma casa rosa com janelões azuis – Lica, nascida Eliane Violante, a queria assim para lembrar as antigas fazendas de café de São Paulo e Minas Gerais que ela frequentou quando criança. Foi na cidade de Cássia, sul de Minas, que ela passou a infância e a adolescência rodeada de irmãos e primos. Mas a lembrança mais afetuosa vem de uma cozinha aconchegante aquecida pelo fogão a lenha da fazenda dos avós, em Tupã, no noroeste de São Paulo: água em ponto de fervura sobre o fogão para passar café fresco, tachos à mão para os doces de frutas colhidas do pomar, muita carne de porco e guloseimas variadas, como biscoitos e queijo frescos, postos na mesa. “Visita tinha toda hora, de modo que não podia faltar comida”, relembra. Após sair de Cássia, Lica viveu em diversos lugares até se estabelecer no Embu, região metropolitana de São Paulo, que no passado foi rota de tropeiros, vilarejo jesuíta, núcleo de hippies e depois ficou conhecida por seus antiquários.
Ela foi dona de um deles, mas em sua cabeça sempre martelava a ideia de construir ali mesmo no município uma casa de fazenda parecida com a de sua infância. Junto com o marido, René Cassettari, ficou decidido que o amigo Fuad Murad, arquiteto especializado em construções rústicas, faria a moradia que tanto sonhara. Lica e Fuad percorreram o sul de Minas Gerais atrás de materiais de demolição, mobiliários e peças de fazendas do século XIX.
“É um pecado, mas essas propriedades estão se desmanchando com o fim de seus ciclos produtivos”, declara o arquiteto. Há 11 anos, a residência ficou pronta, com direito a capela devotada a Santa Rita de Cássia, cristaleiras, “guarda-comida” – como se chamavam os armários de cozinha –, tudo antigo, tudo de outro tempo, como ela tanto queria.
A residência de Lica lembra a dos avós e começou a ficar tão repleta de visitas como a deles épocas atrás. Nos finais de semana, os amigos sempre pediam que ela fizesse o pernil assado em forno a lenha e marinado por 30 horas, além de outras gostosuras retiradas dos cadernos de receitas. A fama da casa e da cozinha se espalhou, e as sugestões para que o casal abrisse as portas para um restaurante que funcionasse aos finais de semana não foram poucas. “Mas cozinhar profissionalmente, para gente que paga por isso, é outro compromisso”, ponderou a proprietária. Animado com o negócio, o casal, incentivado por Fuad Murad, convidou o chef Eduardo Duó, professor de gastronomia e amigo há mais de duas décadas, para assumir a cozinha. Ele foi dono e cozinheiro de alguns importantes restaurantes na capital paulista.
Lica, René, Fuad e Duó (da esq. para a dir.), no jardim do restaurante
Duó sempre teve apreço pela comida do campo, mistura de muitas culturas e feita com ingredientes colhidos na hora para por na panela. A infância passada em Araraquara, interior de São Paulo, perto do sul de Minas, lhe deu inspiração para o menu substancioso da Casa da Lica – restaurante assim batizado –, com rabada, ossobuco com polenta, costelinha conservada na banha (iguais às preparadas no passado, quando não havia geladeira nas casas e as famílias usavam banha de porco como conservante, além de “óleo para fritura”), caldinho de abóbora, pão caseiro, cocada de forno, pudins, etc. “A única preocupação foi adaptar as receitas para que elas não ficassem tão pesadas como no passado”, comenta. “Ninguém vai ter uma lavoura para cuidar depois e queimar tantas calorias”, brinca Lica.
Há quatro meses, a casa, que abre para almoço aos sábados e domingos, tem cardápio extenso, composto de petiscos, entradas, pratos principais e sobremesas, e por essa razão nada lá é apressado. A proposta é fazer com que o visitante se sinta em sua própria residência, coma devagar, converse com os outros e desfrute de uma construção instalada em 3.000 metros quadrados. Foi nessa calmaria toda que saíram de lá invenções dos próprios frequentadores – reservas para eventos fechados, como batizado, casamento na capela e a comemoração de 90 anos de uma senhora. “As pessoas entenderam nosso ideal”, diz a proprietária. Agora, a clientela pede que eles resgatem peças antigas, artesanatos, toalhas e panos de prato bem caipiras em suas andanças. “Querem pôr o rural na cidade”, analisa Fuad, amigo e sócio.
Lica não sente que tenha perdido a privacidade com o entra e sai de tanta gente. Quem frequenta sua casa-restaurante tem liberdade de andar pelos cômodos (a não ser pela parte superior, reservada à família), observar Duó e sua equipe – que recebem as bênçãos da imagem de São Benedito, o padroeiro dos cozinheiros – darem valor para o gosto dos temperos colhidos frescos da horta e entender que a vida às vezes precisa de um pouco de pausa.

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