Uma revisita à Guaraqueçaba, mar e mato à luz da história e cultura da alimentação.
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Kellen Smak
Monografia (Graduação em História) Universidade Federal do Paraná.

Resumo:
A monografia apresentada busca analisar, à luz da temática de história e cultura da alimentação, uma importante fonte da historiografia paranaense da década de 1970, a obra Guaraqueçaba, mar e mato(1), fruto de uma pesquisa etnográfica de fôlego feita no litoral paranaense por Júlio Alvar e Janine Alvar, com tradução da historiadora, professora Cecília Maria Westphalen, à época diretora do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná, instituição de ensino que publicou a obra em 1979.

O estudo da referida obra é uma maneira de revisitá-la, trinta e dois anos depois, a partir de um viés inédito, considerando as contribuições entre história e antropologia, e de inseri-la no debate da história e cultura da alimentação, tema atual da historiografia, o que torna a pesquisa original e, portanto, relevante. Além disso, vale destacar que, na introdução de Cecília Maria Westphalen, é evidente a necessidade de abordagem da obra como ponto de partida para os mais diferentes estudos, já que, referindo-se aos autores ela afirma:

Finalmente desejam assinalar que a pesquisa continua em aberto e deverá constituir pontos de partida para outros trabalhos que, em suas especificidades, possam aprofundar as matérias aqui tratadas e, assim, chegar pela reflexão às teorias que podem emanar de fatos reais(2).

Portanto, o intuito do trabalho é exatamente partir da obra como fonte primária com a finalidade de tratar, especificamente, de seus aspectos alimentares.

É importante destacar que Guaraqueçaba, mar e mato é fruto de uma pesquisa datada historicamente. Trata-se de uma publicação que, praticamente esgota todos os aspectos culturais presentes na região de Guaraqueçaba. Porém a problemática deste trabalho consiste em observar em que medida os aspectos alimentares presentes na obra definem, de certa maneira, as formas de vida da população, delineando suas relações culturais e definindo os hábitos de seus habitantes: daí o diálogo entre algumas áreas do conhecimento, que possam oferecer outras riquezas de análises.

Três objetivos principais permeiam essa pesquisa: 1. a avaliação de quais são os principais gêneros alimentares produzidos no mar e no mato e suas importâncias na vida da população local; 2. a observação dos aspectos descritos por Alvar e Alvar que descrevem os hábitos alimentares da população; e 3. considerar em que medida esses hábitos alimentares se relacionam e se integram com os outros aspectos da vida da população de Guaraqueçaba e da região.

Cecília Westphalen ressalta a importância da farinha de mandioca para a vila de Paranaguá. Ela destaca que esse produto, além de ser a base da alimentação local, foi solicitado, em diversos momentos, para servir de suprimento para regiões que passavam por períodos de carestia, como a colônia de Sacramento, as tropas no sul e o Rio de Janeiro, quando da invasão pelos franceses. Devido à demanda pela exportação, em muitos momentos a Câmara Municipal de Paranaguá tentou impor medidas restritivas à exportação, alegando a situação de miséria de seus habitantes. Mesmo assim chega-se a impor que todos os moradores que possuíam terras plantassem mandioca para o fornecimento das farinhas. Essa situação modifica-se, de acordo com Westphalen, somente a partir do início das exportações de erva-mate para a região do Prata e do Chile(3).

                Sob o aspecto alimentar Guaraqueçaba, mais especificamente, tem duas áreas bem definidas: o mar e o mato, que são os locais de onde é tirado o sustento da população. No primeiro, o peixe é o alimento primordial para a sobrevivência dos moradores já que é a principal atividade econômica dos moradores e também a essência da alimentação. A pesca da manjuba e de moluscos como as ostras também são de suma importância para Guaraqueçaba.

Já no mato as principais atividades são o corte do palmito e das bananas, e também a limpeza da mandioca que constitui, juntamente com o pescado, a base da alimentação. Depois da mandioca, seguem-se, a banana, o arroz, o milho, a cana e o palmito. Este é de grande importância para a economia de Guaraqueçaba. Apesar de ser nativo da região, sua plantação por grandes proprietários fez com que se estabelecesse uma hierarquização e privilégios que são respeitados.

Vale aqui levantar a questão de que ainda há poucos estudos acerca da formação agrícola no Paraná mesmo tendo sido ela determinante para a constituição sociocultural do estado. Observando isso sob um ponto de vista mais específico, ou seja, com base em Guaraqueçaba, mar e mato podemos ver que o cultivo dos gêneros de primeira necessidade, sua distribuição e consumo fizeram emergir uma sociedade simples, porém complexa culturalmente.


(1) ALVAR, J.; ALVAR, J. Guaraqueçaba; mar e mato. Trad. WESTPHALEN, Cecília Maria. Curitba: Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes: 1979.

(2) Ibid.,p. 1.

(3) WESTPHALEN, C. M. WESTPHALEN, C.M. Duas vilas paranaenses no final do séc. XVIII – Paranaguá e Antonina. Boletim do departamento de história. Curitiba, n.5, 1964., p. 74.




 

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