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Memórias e tradições nas receitas típicas da doçaria alemã.

O livro “Entre Strudel, bolachas e Stolen: receitas e memórias” de Juliana Reinhardt segue a mesma trajetória do livro “Diz-me o que comes e te direi quem és: alemães, comida e identidade” fruto da sua tese de doutorado defendida junto ao programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná. Nesse caso, porém, Juliana busca apresentar, por meio de relatos, receitas típicas da doçaria alemã que constituem importante fator de apego às tradições, transmissão e memória.

O livro parte de experiências gustativas da própria autora para quem a comida é momento de integração, lembrança e questão de orgulho. Principalmente quando se refere à identidade do imigrante alemão que enxerga na conservação das memórias uma maneira de fazer conexão com seu passado e com os seus pares. Somado a isso, há ainda a questão da cultura do alimento. O cruzamento entre a tradição e a inovação que se entrelaçam para constituir uma forma de se relacionar com a comida. No livro de Juliana, fica claro que mesmo a receita mais tradicional vai sendo adaptada com técnicas, utensílios e ingredientes disponíveis à época tornando o alimento algo mutável e passível de transformação.

Interessante é o ponto apresentado pela autora quando é mencionada a questão da invenção das receitas a partir da necessidade. Juliana destaca que muitas das receitas típicas são frutos do aproveitamento de ingredientes e que essa prática advém de períodos difíceis e de adversidades. Massimo Montanari destaca justamente esse ponto em “Comida e Cultura” (1) quando assinala que a “a invenção não nasce apenas do luxo e do poder, mas também da necessidade e da pobreza- e esse é, no fundo, o fascínio da história alimentar: descobrir como os homens, com o trabalho e com a fantasia, procuraram transformar as mordidas da fome e as angústias da penúria em potenciais oportunidades de prazer.” (p. 41).

Por meio de relatos de mulheres que viveram essa tradição da doçaria alemã com suas mães e avós, e também com senhoras que ainda conservam o saber fazer vivos em sua memória, Juliana vai costurando as suas memórias com as receitas de doces típicos e dos doces festivos. A autora conta que a escrita do livro partiu de um projeto de oficinas que visavam ao ensino dos doces. Nesse contexto, pode perceber a feitura dos mesmos e os sentimentos envolvidos no processo. O livro “Entre Strudel, bolachas e Stolen: receitas e memórias” é uma importante contribuição para os estudos em História e Cultura da Alimentação, pois resgata práticas, fazeres e memórias que valorizam e perpetuam a cultura alimentar de um povo.

SABRINA DEMOZZI
Mestranda em História/UFPR


(1) MONTANARI, Massimo. Comida como cultura. 1ª Ed. Editora Senac, 2008.

 

REINHARDT, Juliana. Entre Strudel, bolachas e Stolen: receitas e memórias. Curitiba,  Máquina de Escrever Editora, 2012. 

 

 

 

Universidade Federal do Paraná - História da Alimentação