A Curitiba dos bares e
restaurantes :1950-1960
Autora: Maria do Carmo Marcondes
Brandão Rolim
Gosto e prazer são duas
realidades que se manifestam nos menores gestos
da vida cotidiana, como é o estar com os
amigos num determinado lugar para bater papo,
para aperitivar num final de tarde, para comemorar
acontecimentos relevantes da vida pessoal. Quando
esse gosto e prazer acontecem ao redor de uma
mesa, nos bares e restaurantes, lugares privilegiados
de ocorrência da sociabilidade, lugares
onde se dá a partilha, onde se constitui
o social, tem-se a possibilidade de estudar uma
área ainda pouco explorada nas ciências
sociais.
A produção científica dos
últimos anos contabiliza vários
trabalhos sobre a alimentação, principalmente
sob o aspecto material e nutritivo: fome, desperdício
de alimentos, saúde, subalimentação,
dietética e uma infinidade de fontes seriais
que tornaram possível tentar, com uma aproximação
satisfatória, a constituição
de balanços calóricos, protéicos,
vitamínicos, rações individuais
e coletivas.
O presente trabalho tratou da alimentação
não nessa linha de abordagem, mas buscou
a percepção do alimento no contexto
da cozinha, entendida como um microcosmo da vida
social, como a linguagem de uma sociedade, na
qual ela traduz inconscientemente a sua estrutura.
A cozinha faz parte de um sistema simbólico
mais abrangente.
Segundo Massimo MONTANARI (1993, p.24-25):
O homem é o que come:
axioma tão exagerado como verdadeiro; porém
não menos verdadeiro é o contrário,
o homem come o que é : seus próprios
valores, suas próprias opções,
sua própria cultura. Não é
suficiente que uma “coisa” seja comestível,
para que efetivamente seja consumida; são
necessários uma série de condicionamentos
culturais [...] Exclusões e preferências,
e tudo o que numa palavra denominamos o gosto,
não estão determinadas somente pelas
contingências ambientais e econômicas,
mas também pela mentalidade, pelos ritos
sociais, pelo valor das mensagens que são
intercambiadas quando se consome o alimento em
companhia, pelos valores éticos e religiosos;
pela psicologia individual e coletiva que determinam
todos estes fatores.
Concordando com o autor citado,
a opção por estudar a cozinha recaiu
exatamente nessa questão de perceber os
aspectos, principalmente sociais, históricos
e simbólicos que participam direta e indiretamente
da alimentação.
Nos anos 50-60 (século XX), os ares desenvolvimentistas
predominantes no Brasil, a idéia de mudança,
de progresso, refletiam-se nos bares e restaurantes
de Curitiba, que procuravam apresentar e ofertar
novidades, num claro indício de representarem
a moda nacional em termos de culinária,
de decoração das instalações
e do ambiente. Este, geralmente, era iluminado
com luzes coloridas em toda a volta do salão.
A música de fundo vinha de uma radiola
que tocava discos variados.
Alguns pratos que faziam parte dos cardápios
de vários restaurantes brasileiros também
eram encontrados nos restaurantes curitibanos:
estrogonofe, maionese de camarão, filé
à cavalo, filé à cubana,
peru à cubana, peru à califórnia,
lombo de porco com arroz e farofa, leitão
e pernil à brasileira e, na sobremesa,
compota de pêssego com nata, morangos com
nata. A feijoada aos sábados, servida com
todos os seus acompanhamentos, principalmente
em horários não tão rigorosos
(o Restaurante Onha, o Gruta Azul, o Lá
no Pasquale serviam feijoada até as cinco-seis
horas da tarde) foi um dos costumes que vigorou
em Curitiba, como em inúmeras cidades brasileiras.
Nos bares e restaurantes a “novidade”
eram os refrigerantes das marcas Coca-Cola e Crush.
A mistura de rum com Coca-Cola dava uma bebida
conhecida pelo nome de “cuba-libre”
e de Crush com vodka, “hi-fi”, misturas
essas apreciadas pelos jovens freqüentadores
dos bares noturnos.
Buscou-se conhecer o significado e as representações
do ato de alimentar-se. Para tanto, foram pesquisados
artigos de jornais e revistas que faziam referência
aos bares e restaurantes mais prestigiados em
Curitiba nos anos 50-60, e coletados depoimentos
de proprietários, garçons e freqüentadores
desses locais. Para esses depoimentos levou-se
em conta a possibilidade de se trabalhar com entrevistas,
para que através da interação
e do diálogo entrevistador-informante pudesse
emergir “lembranças” de um
passado rico de fatos acontecidos no dia-a-dia,
no cotidiano de várias pessoas que freqüentavam
os bares e restaurantes de uma determinada época
em Curitiba. Essas pessoas, em sua grande maioria,
eram profissionais liberais e famílias
com certo poder aquisitivo. “O cotidiano,
por essência banal, assume um valor positivo
se as ninharias que o compõem são
convertidas em ritos dotados de uma significação
sentimental. [...] A ritualização
confere seu valor de felicidade ao acontecimento
destinado a se transformar em lembrança”.
(MARTIN-FUGIER, 1992, p.194-195).
As entrevistas retrataram nitidamente o fato de
que as idas aos bares e restaurantes eram momentos
prazeirosos que pontuavam o dia/noite das pessoas
porque estavam imbuídas de um ritual -
o da comensalidade - que dava sentido a esses
atos, tornando possível inserir no “fio
do tempo” presente as memórias de
um passado não tão distante, mas
que valia a pena ser lembrado. No sentido benjaminiano,
é como se as idas aos bares e restaurantes
trouxessem a imagem de um passado que perpassa
velozmente e “só se deixa fixar como
imagem que relampeja irreversivelmente, no momento
em que é reconhecido”. (BENJAMIN,
1993, p.224).
Partiu-se do princípio de que a análise
detalhada do comer e beber, dois fatos socioculturais
que acontecem ao redor de uma mesa, inscreve-se
ou no espaço privado da casa, ou no espaço
da rua, ambos espaços indutores da sociabilidade.
Para efeito do trabalho, foram considerados os
bares e restaurantes, pois estes são territórios
privilegiados da sociabilidade. Território
aqui entendido como sendo demarcado não
apenas pelo espaço físico, mas também,
e principalmente, pela rede de relações
sociais ali estabelecidas. Para referendar essa
colocação, vale citar um trecho
de uma das crônicas de Nina HORTA (1996,
p.21):
Pode parecer paranóia,
fragilidade, mas quem come sozinho num restaurante
é ou se sente, sempre, o mais rejeitado
dos mortais. Estão nos olhando, e, o pior,
estão nos vendo. Fica-se à mercê
dos outros, dos tipos felizes, acasalados, e dos
grupos barulhentos que riem à toa. Sozinhos,
no comedouro, somos mal-amados, suspeitos, fugitivos.
Na hora da escolha do prato há um momento
breve de solidariedade e comunhão e a possibilidade
de esconder a cara atrás do menu. Que ele
seja imenso, de preferência. Mas vai-se
o maître, vai-se o cardápio e sobra
só o livro ou o jornal. A maioria esmagadora
dos enjeitados lê. Os solitários
de mesa de restaurante são leitores, intelectuais
obsessivos, e em nenhum banco de escola ninguém
jamais se concentrou tanto, cego e surdo para
o resto do mundo, o horizonte confinado.
Procurou-se situar historicamente o momento em
que surgiu o restaurante, distinto radicalmente
de seus antepassados, a bodega, a taverna ou a
estalagem, em função da limpeza,
do luxo da decoração e, principalmente,
pelo fato de a cozinha se tornar domínio
público. Nessa abordagem, pôde-se
perceber a importância da instalação
desses locais como meios inteiramente exteriores
à família, mas constituíam
espaços para se vivenciar a sociabilidade.
Constatou-se por entrevistas e várias publicações
que os bares e restaurantes congregavam amigos,
uniam pessoas, “frutificavam” amizades,
que aí tinham a oportunidade de comemorar
acontecimentos marcantes da trajetória
pessoal, tais como aniversários de nascimento
e casamento, formatura, além de poder compartilhar
alegrias e tristezas, sentimentos que vinham à
tona, embalados pelo calor do ambiente. Muitos
desses ambientes foram explicitamente considerados
por alguns de seus freqüentadores como continuidade
de seus lares, sua “segunda casa”.
Por paradoxal que seja, esse sentimento reflete
a sensação de se vivenciar e ficar
à vontade em um lugar carregado de afetividade,
de sedução, mas que não é
o lar propriamente dito, e sim um de seus prolongamentos
com o nome de bar e restaurante, espaços
públicos que são tratados e assumem
o significado de espaços privados.
O comer e beber entre amigos reforça os
laços sociais da amizade e transforma os
bares e restaurantes em espaços onde melhor
se vivem as relações de alteridade,
a comunicação entre as pessoas.
Como diz MAFFESOLI (1984,p.61):
... o único lugar ‘onde
a comunicação resiste é o
bar’. Tal observação, longe
de anódina, é rica em sua própria
banalidade. Na verdade, ressalta que é
na vida mais concreta que existe mais sociabilidade.
Longe das estruturas econômica ou política,
a comunicação enquanto função
essencial, perfeita, inscreve-se nos lugares mais
humildes, nas situações mais banais.
É conhecido que, quando num vilarejo ou
num bairro um bar fecha suas portas, é
um pouco de vida que cessa (sem grifo no original).
No espaço humilde onde se exprimem tantas
alegrias e desventuras, nesse espaço onde
estão em jogo tantos afetos e conversações,
a sólida trama social se constitui gradativamente.
É interessante perceber
que a idéia de Maffesoli do bar como a
“vida” de um determinado lugar, também
foi manifestada em alguns depoimentos, como, por
exemplo:
“Cada cidade precisa ter uma alma; a nossa
é o Bar Palácio...” (VALFRIDO
PILOTO).
“O Pasquale é a nossa praia. Referência
de gerações ... Não imagino
Curitiba sem o Passeio, nosso primeiro Parque,
nem o Passeio sem o Pasquale, nosso anfitrião
de sempre ... “ (JAIME LERNER).
A “espacialização da socialidade”
pode ser vista nos depoimentos, a partir de uma
freqüência bastante discriminatória
aos bares e restaurantes. Havia aqueles locais
onde predominavam as famílias, principalmente
para almoçar, nos domingos. Era o “grande
programa” delas, ocasião em que a
dona de casa deixava o “fogão”
de lado, e o marido sentia-se bem em proporcionar
esse passeio à sua família.
O cardápio servido nesses restaurantes
era constituído basicamente de carnes vermelhas,
aves e peixes assados ao forno, com os seus respectivos
recheios e acompanhamentos, o que vem denotar
uma preferência e um gosto das famílias
curitibanas por uma comida mais seca, diferente
dos cozidos feitos em panelas e que se caracterizam
pelo caldo, muito comum em outras regiões
do Brasil.
Outros locais discriminavam por gênero.
Em alguns, como era o caso do Bar Palácio,
mulher desacompanhada não entrava. Na Confeitaria
e Restaurante Iguaçu, em hipótese
alguma seria servida bebida alcóolica para
mulheres que não estivessem acompanhadas.
Certamente, tratava-se de uma “discriminação
sexista”, já que pelo fato de ser
mulher deveria “fazer isso e evitar aquilo”.
Alguns estabelecimentos foram, basicamente, redutos
masculinos, que as mulheres não costumavam
freqüentar, como o Bar Stuart, o Cinelândia
da Ermelino, o Buraco do Tatu, a Gruta da Onça,
cujos pratos mais exóticos e picantes se
voltavam para o paladar masculino como, por exemplo,
testículos de boi e carne-de-onça,
considerados pratos afrodisíacos. Outros,
como a Confeitaria Guairacá, a Gruta Azul
e o Onha, tinham uma freqüência intensa
de turmas masculinas, principalmente aos sábados,
para degustarem o prato típico da semana:
feijoada.
É interessante perceber como as normas
impostas pelos bares e restaurantes reproduzem/revelam
as normas da sociedade na época, quando
o espaço doméstico era incontestavelmente
o território da “patroa” ou
da “rainha do lar”. O marido tinha
sérias dificuldades em dividir esse território
com sua mulher, ter uma vida privada nesse espaço.
Resultava daí a existência de uma
“sociabilidade propriamente masculina fora
da família”, no sentido que PROST
utiliza em seu texto Fronteiras e espaços
do privado (1992). É no bar, no restaurante,
junto com os amigos, quase que diariamente, que
o homem passa momentos de lazer, compartilha particularidades,
amplia e fortalece sua rede de amizades. Com a
família, freqüenta esses locais apenas
em dias determinados da semana, principalmente
no domingo. Restaurantes mais sofisticados como
o Ile de France, o Grande Hotel Moderno e o Restaurante
Nino, tinham a predominância de executivos
e de casais. As churrascarias, os restaurantes
de Santa Felicidade e demais locais eram freqüentados
por vários segmentos da população,
sem segregação.
No fundo, a identidade de cada bar e restaurante
era a identidade daqueles que freqüentavam
tais locais e pode ser reinterpretada como espaços
da boêmia, das famílias, dos políticos,
dos jornalistas, dos esportistas, dos amigos;
espaços determinantes dos vários
níveis de sociabilidade; espaços
públicos considerados extensões
dos espaços privados, pois aí a
vida privada de muitos encontrava um prolongamento,
um eco, um apoio.
O Bar Palácio, o Mignon e o Triângulo
eram os locais que permaneciam abertos até
de madrugada, possibilitando a freqüência
dos boêmios e dos jornalistas. Os demais
bares e restaurantes funcionavam até as
vinte e duas horas, no máximo. Esse detalhe
demonstra que Curitiba tinha poucas opções
noturnas no que diz respeito à alimentação.
Alguns políticos elegiam determinados locais
como seus endereços preferidos para comer
bem, fazer contatos, discutir política.
O Vagão do Armistício era o restaurante
do Interventor Manoel Ribas; o Nino, dos governadores
Bento Munhoz da Rocha Neto e Ney Braga; o Lá
no Pasquale, do Governador Jaime Lerner; a Churrascaria
Cruzeiro, os bares Stuart, Mignon e Triângulo,
o Bar Palácio, enfim, eram pontos de encontro
de inúmeros políticos.
Muitos jornalistas faziam suas matérias
no Bar Stuart, segundo informações
de Ligeirinho, um dos entrevistados: “...
era o Milton Camargo de Oliveira, o Renato Ribas,
o Carlos Valle, o Zanello, do Paraná Esportivo,
o Charchetti, um dos maiores repórteres
que Curitiba já teve, três vezes
ganhador do Prêmio Esso de Reportagem, o
Aurélio Benitez, o paraguaio. Essa raça
fazia as reportagens dentro do Stuart.
O Restaurante Cinelândia da Barão,
o Buraco do Tatu e o Lá no Pasquale eram
redutos de jogadores e pessoas ligadas ao futebol.
Principalmente após os términos
das partidas, o pessoal do Britânia ia direto
para o Buraco do Tatu.
Determinadas regras de como vestir-se e comportar-se,
bem como determinados padrões de moralidade
que predominavam nos bares e restaurantes, refletiam
as normas vigentes na sociedade curitibana na
época. Alguns lugares mais requintados
sugeriam uma certa “etiqueta”, enquanto
outros, como as churrascarias, os bares, os restaurantes
comerciais eram bem mais informais. Na Confeitaria
Iguaçu, o proprietário, sr. Leopoldo,
não permitia que os namorados se beijassem,
quando estavam no interior do salão. Quanto
ao Restaurante Rio Branco, o sr. Artur Teske afirmou
em entrevista que “procurava manter no restaurante
um ambiente extremamente familiar e não
admitia agarramentos”; no Bar Palácio,
segundo o sr.Pepe, “era proibido que as
mulheres entrassem sozinha, para fazer “ponto”.
Essas são expressões claras da imposição
de padrões de moralidade.
Em fins dos anos 60 as mulheres, principalmente
as universitárias, começaram a freqüentar
durante o dia, os bares e restaurantes, sozinhas
ou em grupos. O Lá no Pasquale, que ficava
no Passeio Público, foi um dos primeiros
lugares que atraíram o público feminino.
Ainda sobre a sociabilidade é importante
analisar um de seus elementos constitutivos: a
troca. E é exatamente nos bares e restaurantes
que se pode perceber uma prontidão para
o dar e receber, por parte dos proprietários
e dos clientes, uma relação que
se estabelece e que se qualifica como um outro
tipo de sociabilidade, além daquela entre
os amigos que se relatava acima. Por meio dos
depoimentos, constatou-se que o “atendimento
perfeito” e a “generosidade”
do dono foram quesitos essenciais na questão
da qualidade afetiva incorporada à comida
e que a personalizava e criava a identidades do
bar e restaurante pesquisado, locus privilegiado
onde se processava a dádiva, o dom, no
sentido de MAUSS (1974).
O proprietário, quando se esforçava
para servir bem, estava de alguma forma tentando
presentear o seu cliente com “alguma coisa
de si”, e este, ao efetuar o pagamento do
prato degustado e dos serviços prestados
pelo garçom, estava retribuindo aquilo
que podia ser considerado uma oferta recebida.
Assim, havia entre as coisas trocadas um “valor
sentimental além de seu valor venal”.
Nesse sentido pode-se concordar com MAUSS (1974,
p.56), quando expressa:
... fica claro que, no direito
maori, o vínculo de direito, vínculo
pelas coisas, é um vínculo de almas,
pois a própria coisa tem uma alma, é
alma. Disso segue que presentear alguma coisa
a alguém é presentear alguma coisa
de si [...] Compreendemos clara e logicamente,
nesse sistema de idéias, que é preciso
retribuir a outrem aquilo que, na verdade, é
parcela de sua natureza e substância, pois
aceitar alguma coisa de alguém é
aceitar alguma coisa de sua essência espiritual,
de sua alma ...
Apesar de essa declaração de Mauss
referir-se à sociedade maori, ele mesmo
afirma que “é possível estender
essas observações às nossas
próprias sociedades”. E assim fazendo,
pode-se compreender que os bares e restaurantes
que deram certo e que eram prestigiados, se destacavam
pela qualidade e sabor da comida servida e pelo
atendimento perfeito, tanto da parte do proprietário,
como dos garçons. Em troca, os clientes
respondiam com um contradom, que jamais era idêntico
ao que era dado - em conseqüência da
própria natureza das relações
de troca aí ocorridas - e que pode ser
explicitado como a presença constante,
como a manifestação do “gosto”
e do prazer de estar degustando “aquele”
delicioso prato, como a veiculação
contínua de comentários positivos
sobre os locais em questão.
Nesse espaço específico da sociabilidade
acontecida entre proprietários, garçons
e clientes dos bares e restaurantes, ficou claro
que a relação de alteridade estabelecida
se deu exatamente nos desafios suscitados entre
dom e “contradom”: como resposta à
clientela cada vez mais fiel, o proprietário
esforçava-se para que o seu estabelecimento
fosse absolutamente especial. Assim, pode-se dizer
que o mecanismo do dom e do “contradom”
foi justamente o que deu vida aos bares e restaurantes
analisados.
Mais uma vez as observações de Michel
MAFFESSOLI (1984, p.40) são pertinentes
para referendar a questão situada neste
trabalho:
A troca estrutura toda a nossa
situação mundana, mesmo se para
tanto deva se valer de desvios, deva ser perversa.
O dom, em suas várias modulações,
desde o ritual à ideologia do presente,
é uma dupla relação de distância
e proximidade, permanecendo antes de tudo uma
relação. É, nesse sentido,
o paradigma de uma socialidade ao mesmo tempo
harmônica e conflitiva [...] É o
que diz, a seu modo, o poeta: “Só
tomamos emprestado aquilo que pode ser devolvido
com algo mais”.
Os dados coletados na pesquisa
de campo mostraram que, nos anos 50-60, predominou
em Curitiba, uma cozinha familiar e ao mesmo tempo
tradicional, porque o serviço (à
la carte e/ou prato-do-dia), o atendimento, a
preparação dos pratos e a elaboração
dos cardápios obedecia o “saber fazer”
próprio de cada família que estava
conduzindo o restaurante. Em sua grande maioria,
eram famílias descendentes de imigrantes
estrangeiros que vieram fixar residência
em Curitiba e que encontraram realização
profissional nesse ramo comercial. Essas famílias
dificilmente delegaram a outras pessoas a administração
de seus bares e restaurantes. Estiveram sempre
à frente dos negócios e do fogão
propriamente dito. Cuidaram sempre em manter um
atendimento profissional, mas ao mesmo tempo personalizado
com a clientela, bem como um padrão de
excelência em todos os pratos servidos,
que não podiam ser modificados em sua essência,
apenas nos detalhes, para que não deixassem
de ser pratos típicos, especialidades /
marcas da casa, e que eram procurados por esse
motivo básico. Tudo isso fazia com que
nos bares e restaurantes houvesse a imposição
de um caráter de permanência de todas
aquelas condições básicas
do que se considerava um “bom” restaurante.
Nesse aspecto influíam, inclusive, os utensílios
utilizados no preparo dos pratos: fogão
a lenha e panelas de ferro ou de alumínio
grosso para a cocção dos alimentos
e a chapa do fogão para os grelhados e
as cumbucas de feijoada.
As informações coletadas permitiram
também que se chegasse à caracterização
do padrão alimentar vigente nos bares e
restaurantes de Curitiba nos anos 50-60. Constatou-se
através dos cardápios que predominava
uma “culinária relacional”,
para usar a expressão de Roberto DAMATTA
(1991), ou seja, os pratos preferidos reuniam
vários ingredientes formando uma mistura
que, muitas vezes, era unida com farinha. Assim,
por exemplo, tinha-se a feijoada, bastante procurada
nas quartas-feiras e principalmente nos sábados,
a qual é o resultado de uma combinação
perfeita do feijão com carnes, servida
com fruta (laranja), verdura (couve) e farinha
de mandioca.
Outros pratos se destacavam, como o virado à
paulista, uma combinação de feijão
com farinha; o risoto, uma mistura de arroz com
frango desfiado, miúdos de frango e um
molho bem temperado; o barreado, que é
o resultado do cozimento da carne, toucinho e
temperos, servido com farinha de mandioca e banana;
o mocotó e a rabada, em que se misturam
carnes e molho; a dobradinha, junção
do bucho refogado com o feijão cozido.
Todos esses pratos considerados populares eram
servidos em dias determinados da semana, atraindo
a clientela que gostava de saborear uma “comida
diferente”, que “não se fazia
em casa”, e que tinha um sabor acentuado.
Quando a escolha era de pratos à la carte,
predominava a chamada cozinha internacional, com
destaque para carnes, peixes e camarões
com seus respectivos acompanhamentos.
Ficou explícito também que o gosto
por carnes assadas no forno e na grelha fazia
parte dos hábitos curitibanos, contribuindo
para o sucesso das churrascarias e daqueles restaurantes
que serviam esses pratos. Em alguns bares, o sanduíche
de pernil e o cachorro-quente tornaram-se iguarias
bastante prestigiadas, ao lado de seus respectivos
acompanhamentos: molhos picantes e salada de batatas.
Em outros, destacavam-se vários tipos de
acepipes que, basicamente, identificavam os locais
onde eram servidos.
Ao contrário do que se constatou na culinária
vigente nas várias regiões brasileiras,
em Curitiba não se teve o destaque de um
determinado prato ou iguaria, na maioria de seus
bares e restaurantes. Foi apenas a partir do surgimento
dos restaurantes de Santa Felicidade, com uma
comida influenciada pelos costumes da região
do norte da Itália, que passou a existir
em Curitiba uma cozinha “típica”,
ou melhor, uma cozinha étnica. As demais
etnias não têm a mesma representatividade
dos restaurantes de Santa Felicidade.
Com relação à propaganda
comercial por parte dos bares e restaurantes no
sentido de induzir a clientela à sua freqüência,
constatou-se, pelos dados coletados, que predominava
a divulgação “gratuita”
de informações sobre determinado
bar e restaurante em jornais e rádios,
porque o radialista ou o jornalista conheciam
o proprietário. Vivia-se numa época
em que predominavam as relações
pessoais e elas influenciavam sobremaneira na
divulgação da “especialidade”
da casa. Exatamente por esse motivo é que
se entende que a divulgação “gratuita”
tem a conotação de troca (no sentido
de Mauss) e não de gratuidade, pois radialistas
ou jornalistas freqüentavam os locais, não
pagavam, e, em troca, publicavam, comentavam,
elogiavam aquele determinado estabelecimento.
Por meio das entrevistas realizadas pode-se perceber
que a memória é uma ligação
do vivido com o sempre presente. As lembranças
que vieram à tona sobre as características
dos bares e restaurantes dos anos 50-60 só
foram possíveis, porque essas pessoas viveram
intensamente esse passado, em vários espaços
de sociabilidade, e agora fazem a reconstrução,
a partir do presente, de um outro momento de sua
história de vida. Os fragmentos desse passado
não tão remoto, que se reavivou
pelos depoimentos, pertencem a um tempo em que
o mito do desenvolvimentismo afetava as pessoas.
Imbuídas do espírito do novo, do
moderno, elas faziam das suas idas a bares e restaurantes,
onde havia condições de mudar alguns
hábitos, um ritual de valorização
da comensalidade e de celebração
da amizade e da vida.
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